O fim da era Sloan

fevereiro 13, 2011 at 12:42 am 2 comentários

A lenda Jerry Sloan

Acho que qualquer pessoa que gosta da NBA daria essa notícia com amargura… no meu caso, como torcedor do Utah Jazz há 15 anos, passarei pra frente esse acontecimento, que se assimilam com aqueles eventos em que você perde o chão, com um gosto amargo extra. É o chá de boldo das notícias da NBA desse ano: Jerry Sloan deixa o comando do Utah Jazz. Vamos dar uma olhada na jornada desse monstro e o fato ocorrido.

Gerald Eugene “Jerry” Sloan fez história na melhor liga de basquete do mundo, tanto como jogador, quanto como técnico. Ele é natural de McLeansboro, Illinois (pra quem não sabe, é o estado em que fica a cidade de Chicago) e sempre foi guerreiro, morava na roça, acordava 4:30 da manhã pra trabalhar lá e depois andava quilômetros pra jogar basquete no colegial. Depois foi para a universidade de Illinois, onde ficou apenas 5 semanas por sentir saudade de casa. Aí transferiu para a univercidade de Evansville, onde, além de mandar bem no basquete, trabalhava fazendo geladeiras para a Whirlpool.

E isso deu resultado, pois sua dedicação fez com que fosse escolhido no 4ª pick do 1º round do draft de 1965 pelo Baltimore Bullets. Depois de 1 ano foi para o Chicago Bulls, onde foi chamado de “Bull Original”, por ter sido o começo da expansão do time. Era conhecido pelas fortes habilidades defensivas e já na 1ª temporada o bulls chegou aos playoffs. O post poderia parar aqui né?

Sloan no Bulls

Poderia, mas não vai. Foi eleito para o 1º time de defensores da NBA 4 vezes, 2 vezes para o 2º e 2 vezes All-Star. Pelo que li, dá a entender que ele era um jogador completo, com boa média de rebotes para um armador, jogos de pontuação alta, média alta de roubo de bolas por jogo, ficando em 3º, atrás de John Stockton (já chegamos nele). Além disso, o único título de divisão do Bulls fora do domínio do Jordan, foi com o Jerry. Uma porção de contusões no joelho fizeram com que a carreira como jogador do Sloan se encurtasse e, em 1976, ele aposentou. Junto dele sua camisa nº 4, primeiro número aposentado na franquia do Chicago bulls.

Jerry Sloan e John Stockton

Como um bom defensor e admirador do jogo, Sloan deixou sua jersey pendurada na arena do Bulls, vestiu o terno e voltou para as quadras como olheiro. Depois foi técnico do Chicago Bulls por 3 anos (1979-82), indo no 2º ano para os playoffs, e acabou saindo com uma 3ª temporada ruim. Depois de alguns acontecimentos, acabou como assistente do técnico Frank Layden no Utah Jazz. Em 1988 Layden se aposentou e deixou que Jerry assumisse o time e desse continuidade ao seu legado. Foi assim que levou o Jazz para os playoffs em 16 temporadas consecutivas, totalizando 19 vezes; Foi assim que treinou jogadores como John Stockton, Karl Malone, Jeff Hornacek, Mark Eaton, entre outros; Foi assim que reconstruiu o time jovem com Andrei Kirilenko, Carlos Boozer e, depois, Deron Williams… até mesmo atualmente o Paul Millsap.

É pouco? Então que tal duas finais de NBA com um dos melhores times que já vi jogar (e foi quan do comecei a torcer) nos anos de 1997 e 98. O Jazz tinha o lendário trio Stockton-Malone-Hornacek, mas no outro lado da quadra tinha Jordan-Pippen… isso que é zica! E, pensem comigo, ele quase sempre levava o time para os playoffs, o que significava nada de boquinha no draft. Então Sloan criava seus jogadores com muito tempo e paciência. Tirando os dinossauros, o maior exemplo atual do sangue Jerry pra mim é o Andrei Kirilenko, extremamente completo, defensivo e dono de 3 5-by-5 da história da NBA (só aconteceu 15 vezes e o único com mais é o mito Olajuwon com 6).

Era um pouco chato você ver o Jazz pegando um jogador e ver ele jogando bem depois de 1 ou 2 anos? Era, mas esse era o jeito do Jerry. Pra complicar, apesar da intensidade da torcida do Utah Jazz, ele nunca foi paraíso de free agent, pois nunca foi um clube de tolerar os “eu sou foda” da vida com o ego ultrapassando o teto do ginásio. Então Sloan tirava leite de pedra, usava suas peças e fazia o seu jogo. Flexível, formador, inteligente, esse são 3 adjetivos mínimos pra ele. E não entendam o “flexível” errado… o Jazz tem sim um estilo de jogo pragmático com cada um fazendo parte de um todo. O adjetivo que usei foi para explicar o que ele fazia com o que era possível dar para ele.

Sloan se cumprimentando por ser tão foda

Sabem o pior de tudo? Ele nunca ganhou um prêmio “técnico do ano”, ficando em 2º lugar em algumas ocasiões. Isso é de deixar puto, eu nunca entendi e nunca vou entender como um gênio não leva um prêmio que ele poderia ter lavado, no mínimo, uns 5. Acho que sua consistência em fazer acontecer acostumou os jurados e não os surpreendia mais. Sabe como é, quando algo é foda muitas vezes, o foda vira banal. De qualquer maneira, uma forma de reconhecimento veio em 2009 quando ele (como técnico) e John Stockton entraram no Hall da Fama da NBA.

Depois de tudo isso, chegamos em um fim triste dessa jornada. Não, ele não morreu. No dia 7 de fevereiro desse ano (esses dias atrás mesmo) renovou o contrato com o Jazz para a temporada 2011-12. Mas depois da fatídica derrota na quarta feira da semana passada (10 de fevereiro) para o Chicago Bulls e uma reunião de meia hora com o General Manager (algo como gerente) do time, Jerry Sloan e seu fiel escureiro, o assistente Phil Johnson, renunciaram os cargos e saíram.

Segundo Sloan, foi algo extremamente difícil de fazer, mas que não tinha mais forças para lidar com os jogadores. Segundo fontes, Jerry já teria dito que saíria no intervalo do jogo, quando Deron Williams fez uma jogada diferente da qual ele pediu no fim do 2º quarto. Diziam que o desentendimento com alguns jogadores já se arrastava há algum tempo, mas po, isso é normal! Quando você tem um time x capaz de y e, na temporada, você tem um desempenho de y – 10, é óbvio que dedos vão começar a apontar culpados. E jogada diferente do que o técnico pediu? Michael Vick desobedeceu a chamada de Reid do Eagles nos playoffs da NFL desse ano contra o Packers, o que acabou custando uma interceptação e a saída da competição… é errado, mas Vick e Reid continuam na Philadelphia.

O boato mais “perigoso” que rolou por aí teve como protagonista o cara que, na minha opinião, é o melhor PG da liga e futuro HoF, Deron Williams, um dos pilares da reconstrução do Jazz. Diziam por aí que o Deron falou que se o Sloan continuasse no time, ele não renovaria o contrato em 2012, aí seria um free agent, livre pra ir onde quisesse. Perder o principal jogador não seria nada bom, mas duvido que ele tenha falado isso, e ele já deu entrevista negando. E eu acredito nele, não só por ser fã… existe algo que possa sujar mais sua imagem do que chutar a maior lenda da cidade do time?

Sloan e sua turminha

Vai ser difícil saber a verdade. Pode ter sido essa questão dita anteriormente, pode ter sido a morte do dono do Jazz Larry Miller em 2009 e uma diferente administração de seu filho Greg Miller, nunca se sabe. A NBA está abrindo muito as pernas para os jogadores diva, como LeBron James e qualquer outro ser que seja foda, gosta de falar que é foda, se beija no espelho e quer se juntar com outros do mesmo tipo para levar um título. No Jazz não existe isso, e espero que continue não existindo. Por respeito ao Sloan e seu amor ao JOGO e não ao dinheiro e status. Prefiro continuar sem título, mas que continue chegando nos playoffs com outro esquema de jogo e vez ou outra mostrando uma lição pra esse povo. Prefiro a intensidade de um time que joga junto, não que dá a bola na mão de um cara pra resolver em qualquer situação mais difícil.

Por enquanto parece que Jerry Sloan se aposentou… não sei se será de verdade ou uma aposentadoria Favre/Romário. Ele merecia uma despedida mais digna, mas não quero ver ele nas laterais com outro time. Quem assumiu o time agora é Tyrone Corbin, cara que jogou em vários times, incluindo o Jazz, e depois virou assistente do Sloan. Muitos times estavam interessados nele como técnico nessa última pós-temporada… resolveram dar uma chance pro cara.

Mais alguns números do Sloan pra finalizar então? É o único técnico com 1000 vitórias em um time; tem 60.3% de vitórias na carreira; 245 técnicos foram movimentados na NBA durante seu reinado; falam do Guns n Roses e o Chinese Democracy em relação à demora e aos acontecimentos no mundo, né? Quando Sloan começou como técnico, Guns nem existia… e parou depois do CD Chinese Democracy; Segundo o jornal de Salt Lake, é o maior tempode um técnico em um time (23 anos); 40 jogadores atuais da NBA não tinham nem nascido quando Sloan assumiu o Jazz em 1988.

Meio desnecessário esse último parágrafo, não? Primeira camisa aposentada do Bulls como jogador e Hall da Fama como técnico. Precisa de mais alguma coisa?

O jogador que se consagrou no Bulls. O técnico que teve dois títulos privados PELO Bulls. E que renunciou após uma derrota contra o Bulls. É por essas e outras que os esportes fazem parte da lista das coisas mais fodas do mundo. Isso é história, amigos. Não é um golpe militar, mas são as idas e vindas das 4 principais ligas esportivas dos EUA que tem  ligação direta com a história daquele país.

Fiquem aí com a renúncia dele (sem legendas).

Valeu por tudo mestre Sloan! Que seu legado continue vivo com Corbin e quem mais for pra Salt Lake City.

Até o próximo post e tchau!

 

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2 Comentários Add your own

  • 1. Kaká Attanazio  |  fevereiro 13, 2011 às 2:10 am

    É triste ver esse tipo de coisa acontecer em qualquer esporte. Uma pessoa com tamanha identificação com um time sair assim, sem uma despedida digna pelo que representou, também. Talvez tenha sido assim para evitar a imprensa de um jogo para o outro, caso fosse anunciado com esse tempo de antecedência. Assim sendo, Sloan/Deron/GM e sei lá mais quem, não seriam bombardeados com perguntas sobre rumores x ou y que poderiam influenciar essa decisão nesse momento do campeonato, sendo que tinha renovado pouco antes. Talvez tenha sido pelo lado pessoal, por ter estado nas duas franquias. Ai a decisão já estava tomada a algum tempo e guardada pra ele. Ou um pouco de cada. Seja como for, o cara é digno de receber uma homenagem decente uma hora ou outra, pelo que representou no Jazz.
    Essa história do Deron não facilita também. Não acredito muito que ele tenha tido peito pra mandar uma dessas (ou Sloan ou eu em Utah). Comprar essa briga é meio demais pro meu gosto, afinal estamos falando de alguém com certo tempo de casa (uns aninhos na franquia), não um zé mané que chegou ontem. Mas vai saber… pessoal estrela na NBA surpreende as vezes.
    Sobre a carreira, tanto de jogador como de treinador, confesso pouco conhecia. Depois que saiu a notícia e alguns dados é que fui dar uma olhada melhor. Números e fatos falam por si só, desnecessário qualquer comentário. É só tirar o chapéu.
    Acho que é isso. E se falei alguma bobagem é só me corrigirem.

    Responder
  • 2. Gus  |  fevereiro 13, 2011 às 7:59 am

    Essa notícia não é uma notícia q atinge a NBA mas todos os esportes. Jerry Sloan era o segundo técnico que por mais tempo treinou uma mesma equipe, perdendo somente para Sir Alex Fergusson, que assumiu o United em 1986. Deve ser unanime a opinião que não deveria ser como foi.

    Que este tenha as devidas homenagens feitas pelo Utah Jazz, time que deve sua história dentro da liga a esse técnico.

    Podiam pendurar um terno lá na Energy Solutions Arena tranquilamente. Ngm mais usa terno no jogo do jazz, haha.

    Valeu Jerry Sloan, por mais q tenha t xingado mto como torcedor do jazz, vai ser dificil não ter a segurança do velhinho ali na beira da quadra.

    Responder

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